domingo, 21 de agosto de 2011

O Motorista do Ônibus



Mais uma noite de aula na universidade. São 22h e já estou no ônibus indo para casa. Como sempre, o veículo está lotado. Desisto de passar agora pela catraca e me acomodo em pé, próximo à porta. Atrás de mim encontram-se dois rapazes conversando aos gritos. Penso que seja por conta do barulho do motor do carro. Não importa tanto. Tento analisar o teor do diálogo, mas logo desisto. Pior do que a bateria do mp4 estar descarregada é ter que passar trinta minutos em pé num ônibus ouvindo papo vazio de homem jovem. Concentro-me na visão à minha frente, a estrada. Percebo que todos neste veículo conversam, gesticulam, emitem sons. Exceto eu e outra pessoa, talvez a menos perceptível para os demais, o motorista. Provavelmente se eu perguntar ao estudante que está lá no fundo qual a cor da pele do condutor ele não saiba responder. Com os olhos no volante, concentro-me nesta alma cinza, mas cheia de cores para mim. Ele me chama a atenção ali concentrado nas marchas, nas curvas, nos faróis, calado, mergulhado em si mesmo. Uma pessoa muda, em introspecção, sempre me cutuca os sentidos. Isso porque o silêncio fala alto comigo. Tenho meia hora de estrada pela frente e logo me ocupo de esboçar-lhe o perfil. Aproximadamente 58 anos, pele negra, calvo, rugas por todo o rosto, camisa surrada, coluna encurvada e expressão de extremo cansaço. Por quantas horas este senhor já deve ter dirigido hoje? As interrogações começam a brotar em minha mente. Teria ele uma família? Um homem nesta idade necessita de ter pessoas a lhe esperar em casa. Como terá sido o seu dia? Como deve se sentir ao transportar, diariamente, dezenas de pessoas desconhecidas, que entram no ônibus sem nem demonstrar que percebem sua existência? Ainda não enxergo com naturalidade certas práticas capitalistas que encerram o ser humano numa esfera de máquinas programadas e desprovidas de sentimentos. Concluo que se este homem possui baixa auto-estima, este emprego o afunda mais no poço da dor de existir. Como gostaria de trocar algumas palavras com ele, monossilábicas que fossem, mas apenas para que ele veja que eu o enxergo, que o percebo, que ele existe sim. Mergulho na análise de cada movimento de seus olhos, mãos, pés e respiração. Alguém lá no fundo pede o ponto para descer. Olho para fora da janela e percebo que o mergulhar no espírito do motorista levou todo o tempo do percurso. Ele freia o ônibus. É chegada a minha hora de sair. Antes de passar pela catraca olho para ele e emito alguns sons com firmeza na voz e entusiasmo: – Boa noite, Senhor Motorista. Bom trabalho e ótimo descanso. Ele me encara, bastante surpreso e move os músculos emperrados do rosto, desenhando um lindo e largo sorriso para mim. Desço do ônibus feliz e o vejo partir. Sinto-me aliviada, pois mesmo que por segundos, consegui fazê-lo existir novamente.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O Filme de Suzana

A mulher traída entrou em casa, furiosa, decidida a por em prática seus esquemas de vingança, minunciosamente premeditados. O adúltero estava lá, como de costume, jogado no sofá. A entrada da esposa não foi percebida, o que favoreceu suas ações. Ela foi à cozinha, sacou a faca e, aproximando-se da poltrona onde ele estava, por trás, a enfiou em seu pescoço. A agonia iniciara-se. Ela deu a volta e sentou-se em seu colo para vê-lo agonizar de perto, enquanto o sangue jorrava em jatos frenéticos. Antes que o sofrimento terminasse, teve a ideia de arrancar-lhe os olhos com as próprias mãos. O fez com tamanha satisfação, que suas gargalhadas se tornavam mais vibrantes tão logo seus dedos penetravam mais fundo o crânio do cônjuge. Com os globos oculares em mãos, tratou de fazer o esposo sentir o último sabor de sua vida. Meteu-lhes na garganta dele e pôs-se a observar a sua performance em últimos suspiros. Esvaziou-se de sangue, engasgou-se com suas próprias retinas, e finalmente morreu. A esposa lesada sentiu-se plenamente justiçada. Levantou, lavou as mãos, conferiu o passaporte na mala e saiu porta afora, desaparecendo sem deixar rastros maiores. As luzes do cinema se acenderam. Suzana se levantou, deixou o lugar e fez o trajeto de volta para casa, pensando nestas últimas cenas do filme que acabara de ver. Quanto sangue...Graças a Deus não há traição em meu casamento, pensou ela, enquanto entrava em sua moradia. Em segundos, percebeu os gemidos de Leonardo, o marido. E misturados a estes, ouvia suspiros de uma mulher. Por um breve momento sentiu-se sem saber o que fazer. Foi somente questão de instantes mesmo. Antes de entrar no quarto para fazer o flagrante, Suzana visitou a cozinha. A faca foi suprimida da gaveta. O filme entrou em reprise.